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Tem que ter culhão!

Quarta-feira, Janeiro 31, 2007

"É bem comida essa baixinha. Ela passa com seu sorriso estampado, quase humilhando o mundo a sua volta. Quase negra. Ela passeia com sua bunda genética e uns peitinhos do tamanho certo. É crente, a safada. Se vê pelo seu cabelo mal arrumado, pela roupa feia, pela saia justa. Ai, essa saia justa. A gente percebe que ela não ama, nem é amada. Mulher que ama não carrega esse sorriso, mulher que é amada também não. Ela não tem cara de feliz. Ela não. Ela tem cara de satisfeita."

postado por: RONALDO VENTURA 8:19 AM




Terça-feira, Janeiro 30, 2007

"Ela vinha em minha direção. Ou melhor, na minha direção, porque não vinha para mim, mas em sentido contrário ao que ia. O que importa é que eu a via de frente enquanto andava. Estava vestida do jeito que chamam de normal. Uma calça jeans que está ficando justa, uma blusinha de alça preta e um sapato de salto, de gosto duvidoso. Posso te garantir que 97% das mulheres não sabem andar de salto alto. Ela é uma delas. Ou seja, nas roupas, nos costumes, e pelo jeito, no trabalho, era uma mulher normal. Nada demais. Mais uma que não pode ver chocolate, mais uma que só vai ao cinema quando namora, que come em fast-food, que foi em apenas dois parques na vida toda, que sabe o fim da última novela, mesmo sem acompanhar. Mais uma que não beija qualquer um, mas que daria fácil para qualquer um que fosse famoso. Que diz que gosta de vinho, só de vinho doce, mas não bebe. Que nunca viu um filme europeu. Nem nunca quis. Que não gosta de filme de ação, que acha lindo o Brad Pitt, mas não entendeu o Clube da Luta, essas coisas... Eu pensei essas coisas enquanto ela chegava perto. Mas sem querer julgá-la. Apenas constatei. Vi seu rosto e achei agradável. E como sou educado, mais que a maioria, lhe sorri e disse bom dia. Ela achou que fosse uma cantada, mais uma. Porque ela devia receber várias. Ou acha que sim. Achou que fosse uma cantada vulgar e fechou a cara e seguiu reto. Como ela era apenas mais uma, com certeza achou que eu ia olhar para traz e ver a sua bunda que, com certeza, passou a rebolar mais. Esse tipo de mulher são todas iguais. Resolvi lhe dar uma lição. Lhe mostrar o que é desprezo. Uma pequena vingança, admito. Ela passou por mim, e não olhei!"

postado por: RONALDO VENTURA 9:57 AM




Segunda-feira, Janeiro 29, 2007

memórias





PAULICÉIA CITY
-onde a verdade está ali e lá fora apenas chove-



Ganhei uma colherada do doce
E tinha um gosto horrível
Artificial
Enjoativo
De remédio
Um gosto horrível de infância.
E ao repetir algumas vezes
Percebi que foi exatamente esse fato
De repetir algumas coisas
Ruins
Algumas vezes
Que fez de mim o que sou hoje.

postado por: RONALDO VENTURA 8:17 AM




Sexta-feira, Janeiro 26, 2007

NOTAS DA PARTILHA - XI



Nesse fim-de-semana, será apresentado o espetáculo Âmbar.
Quarto espetáculo do Curupira, grupo que dirijo.
O texto é meu. É uma re-leitura do Mito de Electra.
A montagem foi toda inspirada no Teatro Nô.
Vai ser no Teatro Elis Regina em São Bernardo do Campo.
Apareçam.


(Ótimo! Não consigo colocar a imagem aqui por algum motivo que me escapa. Então, imaginem aque aqui você vê uma mulher com uma Katana na mão e outra coberta com um pano verde, mas é daquele verde meio cinza, sabe? E com brilho.)

Espetáculo Âmbar
Dias 27 e 28 de Janeiro.
As 20h.
R$ 10,00 inteira e R$ 5,00 meia.
Avenida João Firmino, 900. São Bernardo do Campo.

postado por: RONALDO VENTURA 8:38 AM




Quinta-feira, Janeiro 25, 2007

"Eu aparei a lágrima como se ela fosse um pipa. E minha mão uma linha cortante.
Eu aparei a lágrima como se ela fosse uma grama solta. E meus dedos fossem feitos de vento.
Eu aparei a lágrima como se ela fosse um lenço de seda. E minha vontade fosse uma espada afiada.
Eu aparei a lágrima como se pudesse por um ponto final nessa história. E como se minha vida não fosse assim, como é.
Eu aparei a lágrima. Mas ela não parou."

postado por: RONALDO VENTURA 9:20 AM




Quarta-feira, Janeiro 24, 2007

"Não sei se existe essa coisa de tempo certo, sabe? Pessoa certa, lugar certo, hora certa. Nunca acreditei muito nisso. Sei que existem pessoas erradas e lugares errados. Freqüentei ambos a vida inteira. A única hora certa para mim era sempre quando faltava um minuto para daqui a pouco. Mas nunca contei isso para ninguém. Existem coisas que não se contam. Para ninguém.
Essa menina acende os olhos e diz algo sobre dança. Ela tem aparelho nos dentes. E está com o cabelo meio molhado.
Eu sempre fui louco por mulheres de aparelho nos dentes e cabelos molhados. Isso também não se conta. Muito menos para ela.
Eu conto de lugares que passei tocando gaita, a história das minhas botas, do pôr-do-sol mais lindo que existe e mais um monte de mentiras. Eu fico falando para ela não perder o brilho nos olhos. Qualquer coisa para ela não perder esse brilho nos olhos.
Não sei se existem pessoas certas.
Eu não sou a pessoa certa para ela.
Mas se ela tivesse aparecido a alguns anos atrás, eu com certeza não teria ido trabalhar em açougue no Mato Grosso, não teria cortado madeira no Pará, nem fugido da Bolívia, porque eu nunca iria para Bolívia.
Hoje ela não pode mudar nada em mim.
Eu fico quieto.
Ela diz algo sobre sonhos e músicas para violoncelo.
Eu digo que aquela não é uma boa hora.
E vou embora.
Talvez não seja a coisa certa a fazer, mas pelo menos com isso estou acostumado."

postado por: RONALDO VENTURA 8:52 AM




Terça-feira, Janeiro 23, 2007

"Ele estava sentado e nem se dava por isso. Na verdade, não se dava por nada, por quase nenhuma de suas ações. Apenas agia, comia, dormia, limpava, varria e sentava das 12h às 13h. Eram pouco mais de meio-dia e ele sentou. Não comeu. Já havia se acostumado a só comer depois das 18h.
Sentou naquela beiradinha que fica para fora da janela. Sentou e ficou balançando as pernas magras a um pouco mais de 19 andares acima do chão. Lá pelo menos ventava. Dentro da sala que ele tinha que pintar era um forno. Teria um pouco menos de uma hora de sossego, conforto e vento agradável.
Não percebeu a multidão em baixo dele, até aparecer alguém em outra janela querendo dizer algo. Era meio surdo e não entendeu muito bem. Olhou para baixo e viu que tinha muita gente olhando e apontando para ele. Ele nem percebeu que tinha parado aquela esquina na hora do almoço, que as pessoas que iam e voltavam para os escritórios, restaurantes, bares, lojas, bancos, cartórios, firmas, farmácias, papelarias, bibliotecas, padarias, revendedores autorizados, tinham parado e olhado para ele. E tinham até exprimido sentimentos de pena, raiva, inveja ou só curiosidade. Ele tinha se tornado o centro das atenções de uma esquina toda e parado quase um quarteirão inteiro, sozinho, algo que ele nunca imaginou, nem quis, nem esperava que pudesse acontecer. Se ele caísse, se tornaria uma história. Seria contado para amigos e parentes. Com um pouco de sorte, alguém com um celular bacana filmaria e ele ficaria imortalizado na rede. Se ele se jogasse, algum jornal de bairro teria uma noticia interessante, para os que não estavam no lugar certo, na hora certa.
Ele nunca pensou que estava no lugar certo.
Se levantou e foi ver o que aquele rapaz de capacete queria, na certa era um bombeiro e ele teria que fazer alguma coisa na fiação elétrica, mas pô, era hora do almoço.
Mal chegou perto e foi agarrado, jogado para dentro e levado uns tapas para ficar esperto. Que aqui nesse prédio, no meu plantão, nenhum mané ia se matar não.
Não entendeu nada. Não entendeu porque apanhou, nem porque o jogaram fora do apartamento, nem porque não pagaram o dia, ou meio-dia, que seja. Ele morava longe, tentou explicar e pedir. Apanhou mais. Quando saiu para a rua estava meio torto, o pensamento confuso e uma dor forte no baço. Não havia mais multidão. Tropeçou na sua dor e caiu na frente do ônibus.
Mas isso ninguém viu."

postado por: RONALDO VENTURA 9:45 AM




Segunda-feira, Janeiro 22, 2007

memórias





PAULICÉIA CITY
-onde a gente volta em grande estilo-



Eu estava feliz.
Ela estava deitada sobre meu colo
Tinha falado do meu cheiro
Tinha beijado minha boca
Tinha falado que me amava.
Eu estava feliz.
Talvez isso não seja novidade
Para você.
Para mim
Era.

postado por: RONALDO VENTURA 8:30 AM




Terça-feira, Dezembro 19, 2006

Companheiros.
Navegantes.
Amigos de armas.
E ratos do mar.

Vamos parar.

Vamos experimentar a tontura da terra firme. Conhecer outros ares, esticar as pernas por outros lugares, descobrir os segredos e os cheiros dessas mulheres exóticas d´Além do porto.

Voltaremos a velejar no dia 22 do primeiro mês desse ano que chega.

Estejam prontos.

Descançar!

postado por: RONALDO VENTURA 8:34 AM




Segunda-feira, Dezembro 18, 2006

memórias






PAULICÉIA CITY
-onde os meios se perdem e o fim é um só-



Era como numa novela maldita
Eu contava a verdade
E me arrependia

postado por: RONALDO VENTURA 8:16 AM




Sexta-feira, Dezembro 15, 2006

"Yo Bailo!
Foram essas as primeiras palavras que ouvi de sua boca. As outras vieram entre sussuros e mordidas.
Yo soy princesa.
O sabor daquela pele só aumentava a mnha sede, ela apertava as minhas costas e eu queria não perder tempo, queria conhecer aquele corpo todo, saber o cheiro, o peso, o gosto dos seios lindo, bem feitos e túrgidos
Yo soy gitana.
As pernas eram as mais bonitas que já tinha visto, sua voz me enfeitiçava e eu quase parei para ouvir.
Yo soy bailaora.
Foi o que me disse. Mas quem sapateava era a veia bailarina do meu coração."

postado por: RONALDO VENTURA 8:29 AM




Quinta-feira, Dezembro 14, 2006

"Aquele umbigo era um poço sem fundo, um buraco negro onde eu me divertia, era a região onde eu mordiscava, um lugar que eu enchia de saliva, era o mais próximo da mulher que chegava, o resto era fêmea, ali não, ali era mulher, era por ali que ela tinha se ligado a sua mãe, e seria por ali que ela se ligaria ao seu filho, era divino aquele umbigo, era um playground, perfeito com suas dobras e reentrância, o sabor, o cheiro, a textura eram únicos, eu posso dizer que o que me dava prazer era o tempo que ficava ali, perdido naquele mundo fabuloso.
E então ela colocou um piercing.
E o negócio perdeu toda a graça."

postado por: RONALDO VENTURA 8:55 AM




Quarta-feira, Dezembro 13, 2006

"Existe algo de ruim no coração dos homens. Algo bem mal. E não é preciso ser o Sombra para saber. Isso, essa coisa ruim, esse... esse troço, está ficando cada vez mais visível, mais pálpavel. Não venha me dizer que sou eu, que eu que estou ficando mais sensível. É só olhar em volta, simples assim. É só olhar. E sentir. O mal te toca em cada curva, cada esquiva. Ele anda respingando, como um sangue grosso e bilioso, algo como petróleo, mas não tem cheiro. Pelo menos não no começo. Eu ando sentindo esse cheiro. Cada vez mais forte. Ainda não está em ponto de sufocar, mas está perto. Bem perto. Um dia você vai sentir na pele algo meio gosmento, como trilha de lesma, algo como óleo nos cabelos, uma saliva pastosa na boca e um cheiro acre ao redor de tudo. E naõ vai ligar. Não vai perceber. Porque esse mal vem do coração, vem de dentro. Você vai achar normal. E, te garanto, isso vai ser bem ruim. "

postado por: RONALDO VENTURA 9:08 AM




Terça-feira, Dezembro 12, 2006

"Vem! E chegue antes da chuva. E me toma que sou sua! Vem, mas vem como colono, desbravador, bandeirante assassino, caçador de tesouros. Minha esmeralda, meu rubi, meu ouro, minha prata, minha fonte, meu sal, minha água fresca, minha terra santa, meus feitiços, meu dobrão, meus escravos, meu reino, são teus. Me dou para ti: Segure-me com todas as suas forças num beijo, me prenda pelos seios com suas mãos firmes. Seja firme! Seja o que eu espero. Porque eu não posso esperar. Terra, pedras, aço encarnado, varão dos metais e barro. Me possua antes que eu fuja. Porque as estrelas estão tão perto e a tentação é grande..."

postado por: RONALDO VENTURA 8:52 AM




Segunda-feira, Dezembro 11, 2006

memórias





PAULICÉIA CITY
-onde os olhos vermelhos enganam-



Nalgumas noites
Eu ardia
Noutras
Eu fritava.
O meu sangue fervia
E minha insônia me cozinhava em fogo baixo.

postado por: RONALDO VENTURA 8:38 AM